PERFUME

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“Era um dia cinzento, frio, chuvinha fina, nebuloso. Logo na estrada já vi os corredores de cerca elétrica e um nó no estômago. Um dia de visita ao campo de concentração nazista e nada foi mais triste, angustiante, desesperador do que isso. E por algum motivo mais do que inexplicado, eu quero voltar!”, descreve a bailarina Nicolle Vieira sua experiência no Campo de Auschuwitiz, que visitou após residência artística de formação para coreógrafos, na cidade alemã de Stolzenhagen, divisa com a Polônia.

Essa vivência levou Nicolle a retomar pesquisas que já vinha fazendo sobre a guerra e o holocausto, assuntos que a intrigavam desde pequena, resultando em um primeiro exercício solo, apresentado ao público, no estúdio K77, em Berlim. Ainda não satisfeita, Nicolle decidiu seguir com a investigação. Além do campo nazista, esteve em museus na Polônia, em locais históricos, como os guetos judeus nas cidades de Varsóvia e Cracóvia, encontrou-se com habitantes dessas localidades, o que transformaria o primeiro experimento em concepção para um novo espetáculo.

Não só por ser uma temática inquietante e muito recorrente na pauta de diversos pesquisadores, Nicolle se aproximou do sentimento de opressão vivido pelo povo judeu também por uma necessidade de entender a própria origem. A bailarina é descendente de judeus alemães, família Rosner, que veio para o Brasil muito antes do nazismo. Mas sempre se perguntou se teria algum parente distante que viveu os horrores do holocausto. “Desde pequena tinha um sonho repetitivo: uma menina fugindo de soldados nazistas e morrendo em um campo de concentração”, conta.

Deste sonho recorrente da infância e das pesquisas e experiências vividas, nasceu o desejo de revisitar o passado e transformar em arte, esse sofrimento de milhares de homens e mulheres, mortos e perseguidos pelo nazismo, que se estende a diversas minorias, ao longo da história, que de alguma forma, foram vítimas de violência, preconceito e exclusão. No retorno ao Brasil, veio o encontro com Dudude e Nicolle decide montar o solo. “Convidei a artista de dança para dirigir esse processo, porque me identifiquei com seu trabalho, por ela também usar a improvisação. Mas mais do que isso, a Dudude é uma pessoa que quer ver as coisas acontecerem”, explica.

A música tocada ao vivo pelo duo “Marcella The Post Modern”, formada pelos músicos Lucas Soares e Fred Calazans, recria um ambiente de memórias e imaginários. Porém, não como ambientação ou trilha sonora. Os músicos, presentes em cena, também fazem parte da construção cênica. Compõem paisagens sonoras que marcam uma dualidade: de um lado, o sofrimento e a angústia; de outro, doces lembranças e a busca de sentido para continuar lutando pela vida. “Neste tipo de trabalho de improvisação com a dança, o maior desafio é lidar com o espaço que a música ocupa, saber os momentos em que ela deve entrar e sair de cena, sempre em diálogo com os movimentos, sempre compondo uma imagem em tempo real”, explica um dos integrantes do duo, Fred Calazans.

A dança entra no espetáculo como a incorporação de muitas histórias de judeus perseguidos e de outras tantas minorias que viveram e que ainda vivem cotidianamente a violência, representadas por uma única mulher. Segundo a diretora Dudude Herrmann, “essa concentração de muitas memórias em um corpo só faz parte da proposta. A ideia é reunir em Nicolle todo o peso do imaginário que gira em torno do que foi o Holocausto, as guerras mundiais, outros massacres históricos, peso este tão grande, que o corpo não se torna capaz de sustentar”, explica a diretora, que acrescenta: “construir um solo necessita de um corpo com muita gente”, brinca.

As artes plásticas, presentes na ambientação cenográfica e figurino, criados por Junia Melillo, também enriquecem a proposta compondo o ambiente necessário para a representação da luta de uma mulher pela vida. A partir desse diálogo entre dança, música e artes plásticas, aos poucos é revelada, em cena, a história de uma vendedora de rosas, que foi perseguida pelo regime nazista e que, apesar das torturas e do cheiro da morte sempre iminente, continuava a lutar enquanto pudesse sentir o perfume das flores. “A luta pela vida é algo universal, que acontece todos os dias, em diferentes contextos. Mesmo regiões que não tenham passado por guerras ou atrocidades do regime nazista, a perseguição, a violência e assassinatos são encontrados pelos quatro cantos do mundo. Muitas vezes buscamos esquecer essas realidades. A dor pode ser insuportável. Esse trabalho é uma forma de levar um pouco de poesia, tornando as lembranças talvez menos dolorosas”, explica Nicolle.

Segundo a bailarina, o nome “Perfume” vem, portanto, desse lugar contraditório e híbrido da arte, dessa possibilidade de ver rastros de beleza e poesia naquilo que provoca dor: “(Em Auschuwitiz) havia rosas por todos os lados, rosas no vagão que levava os prisioneiros, na câmara de gás. Porém, esse não era o único cheiro ali. Lembro-me de quando entrei, era como se eu conseguisse sentir o cheiro de todos que ali morreram. ‘Perfume’ é um contraste, uma possibilidade de perseguir a beleza, o poético apesar de todo sofrimento, um antídoto a despeito da guerra que vivemos todos os dias”, diz.

 (Beatriz França – estréia em Belo Horizonte, agosto de 2015)

Projeto contemplado: 

  • Lei Rouanet (2013);
  • Fundo da Lei Municipal de Incentivo a Cultura da Cidade de Belo Horizonte (2014) Estréia: 7, 8 e 9 de agosto de 2015 no teatro Galpão Cine Horto em Belo Horizonte/MG – Brasil. Direção: Dudude Hermmann.
  • Lei estadual de incentivo à cultura do estado de Minas Gerais (2014).
  • Prêmio Cena Minas de artes cênicas atribuído pela Secretaria de Cultura do estado de Minas Gerais. (2015)

FICHA TÉCNICA    

Direção e concepção cênica: Dudude Herrmann

Idealização, criação e interpretação: Nicolle Vieira

Trilha sonora original: Marcella The Post Modern (Lucas Soares e Fred Calazans)

Ambientação cenográfica e figurino: Junia Melillo

Desenho de luz: Bruno Cerezolli

Projeto gráfico: Thais Mor

Assessoria jurídica: Laura Castanheira – Gomes Castanheira Advocacia

Gestão cultural e financeira: Laura Castanheira – Oceano Projetos Criativos

Produção executiva: Patricia Imaculada de Matos

Assessoria de imprensa: Beatriz França

Operação de som e luz: Brow Iluminação

Fotografia: Cecília Pederzoli

Vídeo: Joacélio Batista

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