ABANDONO

Se caminha por entre lugares que parece não haver mais vida e se é capaz de perceber os vestígios da história que ainda marca as ruínas, as carcaças, os ferros já tão enferrujados que sequer se sustentam mais. Tudo grita, implora por um olhar, mas o abandono causa isso: indiferença!

Só abandona aquilo que já não cabe mais… também abandona-se aquilo o que se teme demais. Abandona para fugir, porque acha que assim o passado não será capaz de encontrar com um futuro um pouco mais inflamável. É  assim que a vida se faz, entre chamas. Cada banco sem estofado, cada prego já tão enferrujado, cada porta incapaz de ser fechada, as escadas com degraus faltantes, o cheiro impregnado nas paredes imundas, os riscos de caminhar de pé descalço por entre tantos cacos de vida que talvez nem existam mais.

Tantos corpos que por ali passaram, corpos carregados de medo e promessas não cumpridas, carregados de loucuras mas vazios de alegrias… cada corpo como uma garrafa de água deixada aberta em um lugar qualquer. Corpos tantos que ainda passam por entre os entulhos e por ali deixam coisas, testemunhos, lucidez… O abandono é o melhor lugar para o que de mais valioso se pode ter.

E por mais empoeiradas que janelas estejam, por mais escuro que seja o interior de cada vagão, por mais degradada que se veja a paisagem, o abandono guarda em si todo um potencial poético em cada um dos seus mais obscuros mistérios. Afinal ele abriga sorrisos que não se quer mais, engole cores e cheiros do que foi deixado para trás. Abandono é a memória que se rejeita, é o querer esquecer, apagar. Abandonar é amar demais para ser capaz de continuar. É se acovardar.

Abandono como o poço mais profundo dos desprezos, como a água mais turva em que se pode mergulhar. Abandonar é dar a chance à outra pessoa de encontrar. E no encontro, só no encontro de quem já abandonou e do que foi abandonado, finalmente um sorriso – mesmo que ainda tímido – mas que guarda em si uma infinita capacidade de fazer o cinza também uma cor à se contemplar!

ENGLISH: 

Walk between places that seems to be no longer alive and you can notice the traces of history that still marks the ruins, the carcasses, the rusty irons that barely hold up themselves anymore. Everything screams, begs for a look, but abandonment causes this: indifference!
Only gives up of what no longer fits… Also abandons what fears the most. Abandons  to run, because thinks that this way the past will not be able to meet a future slightly more inflammable. This is what life is made of, between flames. Each seat without upholstery, each rusty nail, each door unable to be closed, stairs with missing steps, the impregnated smelling on filthy walls, the risks of walking barefoot through so many shards of life that perhaps no longer exist.
So many bodies that passed by, bodies filled with fear and unfulfilled promises, loaded with follies but empty of joys… each body like a bottle of water left open somewhere. So many bodies that still pass through the rubble and leave things around there, testimonies, lucidity… Abandonment is the best place, the most valuable thing you can have.
And as dusty as the windows are, however dark is the interior of every wagon, however degraded the landscape may be, abandonment holds within itself a poetic potential in each of its most obscure mysteries. After all it holds smiles that are not wanted anymore, it swallows colors and smells of what was left behind. Abandonment is the memory that is rejected, is the wish to forget, to erase. To give up is loving too much to be able to continue. It is to cower.
Abandonment as the deepest hole of scorn, like the murkier water in which you can dive. To give up is to give the other person the chance to find. And at the meeting, only at the meeting of those who have abandoned and who were abandoned, finally a smile – even if still timid – but that keeps in itself an infinite ability to turn gray into a color to also be contemplated!
FOTOS/ PHOTOS: Rubia Willig

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