Ser uma outra mulher / Be another woman

IMG_4555.JPGEla já não tinha mais esperanças de um dia conseguir ser feliz. Desconhecia a felicidade assim como desconhecia os seus mais íntimos desejos. Ficava a olhar pela janela esperando que o sol que se punha atrás das montanhas pudesse indicar algum caminho. Orava todas as noites pedindo para que os ventos afastassem dela tudo o que a impedia de sorrir, pedia aos raios e trovões que a protegessem. Sentia o vento em seu rosto e saia correndo pela tempestade: é preciso sentir a alma sendo lavada! Chorava de felicidade, tristeza, angústia e euforia tudo ao mesmo tempo, porque amava demais… e era amada de menos. Epahei Iansã que apazigua as agonias quando com seus ventos fortes leva para longe tudo o que é possível odiar. Ventos para inovar, criar, mobilizar… Orixá forte capaz de amar como se não houvesse amanhã.

E foi sem mesmo colocar os pés em águas salgadas soube que poderia ir, não partia sozinha. O azul do infinito envolviam as suas escolhas como um presente da vida. Tinha medo, mas seguia, mesmo algumas vezes olhando para trás, duvidando do que fazia, seus pés continuam levando-a a diante. Não queira chegar aonde sua alma não alcança. A dessa mulher é capaz de ir para muito além… Foi sorrindo que escondeu cada lágrima. Foi se divertindo que abafou toda a sua solidão. Foi se doando que disfarçou todo o seu vazio (quem se doa por inteiro acaba ficando sem nada). Se alimenta cuidando, se alimenta com o sorriso do outro. Mas foi na entrega, na mais intensa que seu corpo já conheceu, que entendeu o quanto a sua força na verdade mascarava toda a sua fragilidade.

As noites volta sozinha para casa, vê sozinha o quarto escurecer, ocupa a cama com todos os seus sonhos… dorme… (sozinha)… sonha… acorda com todo vazio de quem passou horas em uma vida que não existe e quando abre os olhos se dá conta de que não tem ninguém para dar um beijo antes de se levantar. Não existe mais o momento de contemplação agradecendo aquele que escolheu estar ao seu lado. Escolheu partir, não se arrepende. A solidão as vezes lhe cai bem. Não porque a conforte, mas justamente por todo desconforto que ela é capaz de causar. O avançar não se faz só com sorrisos, anseio, quase desespero em querer fazer diferença na vida de quem faz diferença para ela. Não suporta ser esquecida. Não suporta monotonias apesar de amar o preto e branco.

Uma mulher como qualquer outra e que busca se tornar muitas, às vezes renunciando a ela mesma. Uma mulher que vivendo suas próprias experiências se torna uma outra mulher, e outra, e outra, e outra. Uma mulher que contêm em si os mistérios de todas as outras mulheres.

Ser mulher é escolher bem as experiências que se quer viver. E se não for para deixar marcas meu bem, ela vai embora também. O que lhe importa mesmo é o que ela é capaz de mudar em você. Se não muda nada, não há porque ficar. Vai-se embora que aqui lugar mais não há. Só o desejo não lhe basta. Não quer a seriedade mas tão pouco se rende à superficialidade, por mais efêmeros que sejam os momentos, que sejam intensos. Se é para continuar o mesmo então porque viver? Prazer intenso tem bebendo um bom vinho; quando o prazer acaba, disso o que fica? Não passa se não for para deixar traços, memória. São muitas as marcas que carrega no corpo, ainda mais as memórias que traz na alma. Cada uma no seu lugar. Se for para desejar que a entrega seja inteira. Pouco importa quanto tempo dura; um segundo, uma hora, um dia, um mês… um ano talvez.

Um ano, talvez.

ENGLISH VERSION

She no longer hoped to be happy someday. Happiness was as unknown as her innermost desires. Staring at the window she hoped that the sunset behind the mountains could indicate any path. She prayed every night asking the winds to move away everything that kept her from smiling; begging the lightning and thunders for protection. She felt the wind on her face and ran through the storm: it is needed to feel the soul being washed! She cried with happiness, sadness, anguish and euphoria all at the same time, because she loved too much … less than she was loved. Epahei Iansã is who appeases the agonies when carries away in his strong winds all that is possible to hate. Winds to innovate, create, mobilize … Strong Orixá capable of loving as if there was no tomorrow.

Even without putting her feet in salt water she knew she could go, she wasn´t leaving alone. The blue of the infinite enveloped her choices as a present of life. She was afraid but she kept going, looking back sometimes and doubting what she was doing; her feet were still carrying her forward. Never wish to reach where your soul does not reach. This woman’s soul is capable of going far beyond … Smiling she hided every tear. Having fun she drowned out all of her loneliness. Donating herself she disguised all her emptiness (whoever donates itself completely ends up getting nothing). Feeds itself by caring, feeds itself on the other’s smile. But only after surrendering herself in the most intense way that her body had ever known she understood how much her strength was in fact masking all her fragility.

She comes back home alone at night, she watches the room getting dark, she fill the bed with all her dreams….sleeps (alone)…she dreams…wakes up with all the emptiness of those who have spent hours in a non-existing life and when she opens her eyes she realizes that there is no one around to kiss before get up. There is no longer that contemplation moment in which she thanks that one who chose to be by her side. She chose to leave and she doesn’t regrets. Sometimes loneliness suits her well. Not because it comforts her, but precisely because of all the discomfort it capable of causing. Progress is not made only with smiles, longings, the almost despair to make difference in life of those who make difference in her life. She doesn’t bear being forgotten. She can’t stand monotonies despite loving black and white.

A woman like any other. Seeking to become many, sometimes renouncing herself. A woman living her own experiences becomes another woman, and another, and another, and another. A woman who contains within herself the mysteries of all other women.

Being a woman is to choose well the experiences to be live. And if it is not to leave marks my dear, she goes away too. What really matters to her is what she is capable of changing in you. If nothing changes there is no reason to stay. Go away cause there is no room here anymore. Only desire is not enough for her. She does not want seriousness but she won’t surrender to superficiality as well. However ephemeral the moments may be, be intense. If it is to continue the same then why live? There is an intense pleasure by drinking a good wine; but when the pleasure is over, what’s left? Do not pass if it is not to leave traces, memory. There are many marks she carries on her body, even more are the memories she brings in the soul. Each one in its own place. If it is to wish for a completely surrender, it does not matter how long it lasts; a second, an hour, a day, a month… a year maybe.

 A year, maybe.

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2 comentários sobre “Ser uma outra mulher / Be another woman

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