Os invernos que temos que passar / The winters we have to go through

arvore

Há dois eu já havia começado a minha jornada rumo à Amsterdam, só não tinha sabedoria ou sensibilidade o suficiente para perceber, naquele momento, o que este lugar guardava para mim. Lembro-me dos dias frios e das manhãs rosadas, com a mínima luz e o máximo dos ventos, foi quando comecei a andar de bicicleta no inverno, a comer space cake e a rejeitar alguns muitos programas turísticos. Interessava-me mais pela vida nela mesma. Um ano e meio depois voltei e me reapaixonei. Perdia-me por entre as águas e prédios, encharquei-me na chuva apesar do verão. Brasileirei muitas noites para não me esquecer de onde venho. Descobri uma outra forma de viver, talvez mais leve e também mais segura, porém mais solitária. Naquele momento a solidão ainda era um peso, não suportava as paredes dos meus sonhos e tampouco me permitia destruí-las. Abria a porta e as deixava reinando no espaço que eu deveria dominar. Para conseguir respirar corria por entre folhas verdes sem perceber que estavam lá.

Há sempre alguém para te dizer quem você é, comigo não foi diferente.

 Vulnerabilidade foi a palavra que não aceitava, não podia… Se em algum momento o fosse estaria perdida. Quebraria de tal forma que os pedaços se fariam cinzas. Chorei! Chorei por três noites e dois dias. Chorei do amanhecer até o sol sumir, chorei até as estrelas aparecerem tímidas. Continuei chorando na escuridão quase efêmera do verão holandês. Chorei porque não tinha mais nada a fazer.

E quando as lágrimas acabaram, dancei!

Dancei com o peso e a alegria do não, da renúncia. “Não posso mais!” Sabia que não seria fácil, mas também sabia que valeria a pena. Foi assim que soube que teria que voltar mais uma vez, três meses depois.

Nunca gostei da solidão, gosto dos encontros, conversas, gosto das cervejas e dos tumultos. Como boa brasileira que sou estou acostumada ao sol e ao calor escaldante, às poucas roupas e aos pés no chão. Isso até escolher o inverno como moradia, inverno do corpo, inverno da alma. Cada estação tem a sua função. O ano acabava, a necessidade de ficar só, sentir o frio dentro dos ossos. Os dias se tornaram curtos demais, as noites longas demais. Só a solidão é capaz de dizer o que realmente faz diferença para alimentar a alma, isso quando se aprende a escutá-la. No fundo já sabemos, o corpo sempre sabe o que é preciso para se manter vivo.

Dias cinzas com pouca luz, às vezes com chuva, outros com vento. Mas sempre dias alegres… Talvez nem tanto… Com a certeza de que cada um tem a sua beleza. Principalmente aqueles em que abro as janelas e vejo as árvores já sem folhas, completamente vestidas de branco. Há algo interno que muda com as mudanças das estações. Se antes eu não suportaria passar um dia inteiro em casa, hoje entendo o quão essencial isso pode ser. Não quero raízes, não quero certezas, tampouco quero paredes, muros ou barreiras. Mas há certos momentos em que as paredes do quarto podem se tornar muito mais interessantes do que o mundo lá fora: quando é o momento de o inverno chegar. O inverno foi feito para todos. Mas nem todos estão preparados para enfrentar os seus invernos.

Nesses poucos dias invernais a vida social se resumiu ao que faz diferença: capoeira! De resto as paredes brancas do meu quarto temporário abrigaram certas escolhas na companhia de livros e garrafas de vinho. Abrir as cortinas que encobrem janelas de vidro duplo, madeira branca e três dobradiças, para garantir que está mesmo bem fechada. Afinal, alguns detalhes falam mais das pessoas do que se elas mesmas tentassem explicar suas escolhas. A neblina que cobria a paisagem transformava a cidade em um perfeito filme de terror. Cinza, frio e sem perspectiva. Olhar pela janela passou a ser “ver para muito além”… Se antes queria sair correndo pelo mundo afora, sem saber ao certo para onde, como, com quem… Hoje só a aventura da descoberta não me satisfaz mais. Preciso que meus passos me levem para algum lugar.

 Vejo muitas pessoas que abandonam suas raízes em busca de uma vida outra. Não é que a vida anterior não lhes coubesse, apenas sabem que o mundo das experiências – da sabedoria – está para muito além do que aquilo que todos vêem. Afinal, somos tudo aquilo o que vivemos.

 Mas há algo por detrás desse aventurar-se que ninguém conta, ou sequer se dá conta: Quem abandona, foge! A vida espera mais de nós, por isso buscamos viver. Fugimos das pequenezas, e quanto maiores nos tornamos, mais intensa – e profunda – se torna essa fuga. Vejo nos olhos de muitos a realidade de um lado e a saudade do que deixaram de outro. Nem sempre os desejos podem ser atendidos. A vontade de sorrir é grande, mas a cada sorriso se vê um soluço, um aperto no peito, um lamento. Ninguém sabe as batalhas que cada um lutou para chegar aonde chegou. Não julgo, aprendo! Observo os caminhos percorridos e percebo que muitas dores foram superadas, muita alegria foi conquistada, mas olhando no fundo dos olhos marejados de contentamento e que emolduram um sorriso largo, de riso forte, de uma personalidade que tenta também ser forte, mas que em toda a sua força esconde um vazio. Não sei se grande ou pequeno demais.

 Mas só um vazio pode reconhecer outro vazio… E é no vazio que a vida se faz!

 ENGLISH VERSION:

 Two years ago I had already begun my journey to Amsterdam, I just did not have enough wisdom or the sensitivity to realize, at that moment, what this place would hold for me. I remember the cold days and pinkish mornings with the minimum light and the maximum of the winds. When I started biking in the winter, eating space cake and rejecting many tourist programs. I was more interested in life itself. A year and a half later I came back and fell in love again. I was lost in the water and buildings, I got soaked in the rain despite the summer. I’ve turned nights more brazilian in order to not forget where I came from. I discoveredanother way of living, perhaps lighter and safer, but more solitary.

 At that moment, loneliness was still a burden; I could not either bear the walls of my dreams or destroy them. I opened the door and left them reigning in the space I was supposed to command. In order to breath I ran through green leaves without realizing they were there. There is always someone to tell you who you are; it was no different to me.

Vulnerability was the word I did not accept, I could not … I would be lost if I did it. I would break myself down in such a way that the pieces would turn into ashes. I cried! I cried for three nights and two days. I cried from the sunshine to sunset. I cried until the stars shyly appeared. I kept weeping during the almost ephemeral darkness of the Dutch summer. I cried because there was nothing else I could do.

And when the tears were over, I danced!

 I danced with the weight and joy which comes from “no”, from renunciation. “I can not anymore!” I knew it would not be easy, but I also knew it would be worth. That’s how I knew I would have to go back again, three months later.

I never liked solitude, I like meetings, conversations, I like beers and mess. Like a good brazilian, I am used to the sun and the scorching heat, to use few clothes and having my feet on the ground. That was until I took winter as my home, winter of the body, winter of the soul. Each season has its function. The year was over, the need to be alone, to feel the cold inside the bones. The days became too short, the nights too long. Only loneliness can tell what really matters to nourish the soul, when you learn to listen to it. Deep down we already know, the body always knows what it takes to stay alive.

Gray days in low light, sometimes rainy other times windy. But always happy days…Maybe not that much… With the certainty that each one has its beauty. Especially those days in which I open the windows and see the trees already leafless, completely clothed in white. Something inside changes together with the seasons. If before I could not bear spending a whole day at home, today I understand just how essential this can be. I do not want roots, I do not want certainties, I do not want walls or barriers. But there are certain times when the bedroom walls can become much more interesting than the outside world: when it is time for winter to arrive.

 Winter was made for everyone. But not everyone is prepared to face their own winters.

 In those few winter days, social life has been reduced to what makes a difference: capoeira! Besides, the white walls of my temporary room sheltered a couple of choices in the company of books and bottles of wine. Open the curtains covering double-glazed windows, white wood and three hinges, to ensure it is well-sealed. After all, some details speak more about people than if they tried to explain their own choices. The haze that covered the landscape transformed the city into a perfect horror film. Gray, cold and out of perspective. Looking out of the window became to “see far beyond”… If before I wanted to go running around the world, not knowing for sure where, how, with whom … Today the adventure of Discovery itself does not satisfy me anymore. I need my steps to take me somewhere.

I see many people who abandon their roots searching for another life. Not that their former life did not fit them, it is just that they know that the world of experiences – of wisdom – is far beyond what everyone sees. After all, we are all that we live.

 But there is something behind this adventure that no one tells, or even realizes: Whoever leaves runs away! Life expects more from us, so we seek to live. We run from smallness, and the greater we become the more intense and deeper the escape becomes. I see in the eyes of many people the reality on one side and the missing for what was left in the other side. Desires can not always become true. The wish of smiling is huge; however every wish comes with a hiccup, a tightness in the chest, a lament. No one knows about the battles each one fought to get where they are. I do not judge, I learn! I observe the paths covered and I realize that many pains have been overcome, much joy has been won, but looking deep in the eyes smelling of contentment framing a large smile of strong laughter, from a personality that also tries to hold on but that in all your strength hides in emptiness. I do not know if it’s too big or too small.

 But only emptiness can recognize emptiness… And it is in emptiness that life is made!

 

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2 comentários sobre “Os invernos que temos que passar / The winters we have to go through

    • Me desculpe não ter respondido antes… Leio muito Clarice Lispector, sem dúvida minha principal fonte de inspiração ultimamente. mas também tenho lido Natalie Goldberg, poemas do Julyen Hamilton e “lendo”, ou melhor, observando muito as pessoas 😉

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