Sempre gostei do violeta, mas é o vermelho que me transforma

blog-1.jpgA liberdade de um poeta é mais do que uma liberdade qualquer. Quem um dia liberta um poeta será como aquele que um dia abriu a caixa de pandora, libertará almas e todos os sentimentos que ela é capaz de comportar. Libertará o medo, e mais forte que ele a essência do amor pelo mundo, pela vida e tudo o que está muito além daquilo que os olhos alcançam ver. Leio poesia de outras terras, uma poesia tão mundana quanto as minhas memórias, e me recordo dos arrondissements, das estações de metro, dos parques e squares, das rues e boulevards… Ah Paris, tu me manque comme jamais. Entre lembranças dos vividos e dos sonhados, em pura fantasia me (re)vejo caminhando por entre aqueles monumentos em plena primavera. Nada mais encantador do que ver as flores ressurgindo em um dos lugares mais lindos e inspiradores do mundo. Fantasio e penso: quanta poesia, romances e dramas ainda por escrever.

Minha inquietude pede um retorno ao único lugar do mundo que um dia escolhi deixar, e deixando-o foi o único à me revelar o que é a sensação de sentir em casa. Sinto dos dias cinzentos, do frio e até mesmo do mau humor dos parisienses.Sinto falta dos meus amigos e a grande família que nos tornamos, das festas que fazíamos só porque alguém tinha um pouco de feijão para cozinhar ou um pão de queijo para assar.

Sinto falta de sentir saudades do Brasil.

Sinto falta de querer ouvir música brasileira, de querer falar brasileiro. (E digo falar brasileiro sim, porque nosso português não é um português qualquer, tem sua própria identidade e deve ser reconhecido como tal.) Sinto falta de encontrar compatriotas viajantes e de desejar um pouco de sol… de sonhar com dias insuportavelmente quentes e das tempestades do nosso verão tropical. Sinto falta de tanta coisa que no dia-a-dia não me importam mais. É essa saudade de algum sentido que me transtorna e misturam medos e desejos em uma tormenta que nem Ulisses seria capaz de atravessar. Não me satisfaço com nada, e sou feliz assim. Nunca canso de mim porque sempre me deixo para trás para me tornar um outro alguém que não imaginava ser capaz.

Aprender uma outra língua, aprender a cozinhar outras comidas, aprender a me vestir diferente… Ainda lembro do meu primeiro inverno e minha dificuldade em usar botas. Não me identificava com elas, me transformavam em algo que ainda não era. Preferi por muito tempo ter os pés quase congelados do que não me reconhecer em meu próprio corpo.

As coisas mudam.

As pessoas também.

Eu mudei…

Mudei de cidades, estados, mudei de país. Mudei de roupas, estilos, muitas foram as cores do meu cabelo. Mudei de língua, de pátria, até minha nacionalidade não é mais a mesma. Mudei de religião, de crenças, de danças… Só o que nunca muda é o meu querer continuar mudando, transformando… sendo alguém que ainda não fui. Querer esse que se alimenta da vida, e da morte também. Porque morro todos os dias. Morro a cada noite e a cada despertar. Morro e renasço. Serão muitas ainda as minhas mortes e em todas elas minha essência perdurará mantendo acesa a chama da vontade de viver no coração de cada um que já cruzou o meu caminho. E só por tê-lo feito levou algo de mim consigo fazendo de mim diferente de quando me conheceu.

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