Poetizemos a vida

IMG_4823-1Mais um dia amanhecia nas montanhas das gerais, dia de sol com verde reluzente e iluminado por sorrisos de crianças tão inocentes quanto flores que  desabrocham no início da primavera. Alguns sonhos foram desfeitos com o subir e descer do sol atrás das serras nessa longa jornada revelando que alguns paraísos talvez não fossem tão encantadores assim. Mas como dizem por aí, quando uma porta se fecha é para que outra possa se abrir. Fechando os olhos para além mar passei a prestar mais atenção em terras não tão longínquas, mas também não tão próxima a ponto de não fazer sentido mudar. 

Aqueles foram dias a ficarem gravados na memória, no corpo, e na sensação de um prazer imenso pela oportunidade de reencontrar irmãs de alma e de conhecer figuras que sem saber acabaram dando novos rumos pro ano que acaba de começar. Desfrutava de pequenos prazeres que só os refúgios sabem oferecer enquanto os ouvia contar casos da vida louca na grande capital paulista. A correria da maior cidade brasileira, uma das maiores do mundo, o vício de morar em um lugar que sabe matar lentamente enquanto faz viver. Ao menos foi essa a leitura que fiz dos relatos de vida que me foram contados ou que sem querer foram ouvidos. Os cafés e as cervejas iam e vinham enquanto me encantava por aquelas vidas. Não me importava quantas pedras encontrassem no caminho, eles souberam guardar todas para construírem os seus castelos. Quanto mais eu os conhecia mais me perguntava: Qual a diferença entre eles e eu além da cidade em que vivemos? Será que lá tem mais pedras?

Talvez a resposta seja muito mais simples : eles simplesmente não fazem essa pergunta! Eles vivem e são exatamente aquilo o quê escolheram ser. Por isso me retiro em minha insignificância para me redimir comigo mesma, mas não em silêncio porque este me perturba. Tenho uma alma ansiosa e eternamente insatisfeita porque sei que o universo sempre têm mais a oferecer.

Algumas cachaças a mais e uma leveza de corpo, apesar de a alma não ser tão leve assim. Sensação de que tudo está diferente sendo que nada mudou. Olho uma cachorrinha saltitante pela paisagem, ouço histórias de outros países, histórias de insônias e anti-depressivos, observo conflitos e percebo narizes nada acostumados ao ar puro campestre. Histórias entrecortadas por um gavião que sobrevoa nossas janelas em busca de sua caça, seguindo seu ritmo natural enquanto as vacas ruminam e os bezerros mamam. Contemplo as cenas que existem por si só e por isso mesmo são um presente pois não exigem nada e oferecem a oportunidade do simples contemplar. A vida continua acontecendo e eu penso: viver poderia ser tão mais simples…

Tenho menos responsabilidade comigo do que demonstro. Mas tenho muito mais paixões do que consigo viver. Não busco palavras como os afogados buscam por um pouco de ar porque gosto de me deixar afogar em sentimentos.

Um ano que começou em paz, com uma vida simples mas de muitas possibilidades, com comida que dá gosto de comer, bebendo à vontade, com muita leitura e muito respeito, com exemplos, entre campos verdejantes, entre sorrisos e suspiros, aprendendo… sempre aprendendo!

Todos os anos se despertam com novos focos, e novas metas. Precisei de um tempo a mais que o recomeço para poder dizer: nunca fui boa nisso. Não sei o quê é foco e raramente consegui cumprir ao menos metade das minhas metas. Tenho sonhos e sempre vou sonhar como os mortos sonham em reencarnar. Sabem que um dia terão a vida novamente, e mesmo sem saber quanto tempo terão de esperar, esperam pacientemente por toda a eternidade. É assim que vivo, no anseio dos mortos que se querem mais uma vez vivos!

Nunca soube o quê queria ser quando crescer, nunca tive uma única cor favorita, nem sequer sabia dizer a comida que mais gostava. Não tenho escritores prediletos nem uma música tema para minha história. Não tenho nada que não seja capaz de mudar no instante seguinte porque eu sou capaz de mudar todos os instantes. Não consigo ver algo como único e eterno porque para mim o quê nada muda não pode ser outra coisa senão as grades de um vazio devastador de sentidos. Preciso da minha liberdade, e preciso das minhas asas.

Para poder voar tive que aos poucos aprender à me deixar surpreender. Me surpreendi com palavras e atitudes, com música, com dança, at;e com lutas. Me deixo surpreender como os raios e trovões surpreendem as chuvas. As águas que caem sabem exatamente o quê as espera e nem por isso deixam de se emocionar quando a luz que rompe os céus explode em tanta magnitude que mesmo aqueles mais descrentes acreditam haver algo de divino no mundo. A existência não poderia deixar nunca de ser bela. E só possui beleza por ter quem a contemple.

Tenho sim muitos sonhos e muitos caminhos e nenhum deles é menos importante do que qualquer outro. Sou uma mulher de muitas paixões. Abandono o quê não me interessa mais e isso não faz de mim alguém menos determinada. Apenas me considero mais exigente. Para estar na minha vida têm de ser algo que traga ainda mais sentido para o meu viver. Não tenho um só propósito, não sou alguém a quem se pode colocar um rótulo. Não sou só bailarina. Também sou psicóloga, filósofa, professora, produtora, pesquisadora, diretora, escritora, coreógrafa. Sou amiga, sou mulher, sou filha, sou irmã, prima, sobrinha, neta. Sou escorpiana, sou Iansã  e a pouco tempo também me (re)tornei capoeirista! Ah, a capoeira… arte que me fez entender que posso ser tudo mais o quê minha alma permitir. A minha vida é ser tudo e ainda um pouco mais.

 

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