Me perdi em algum lugar por aí…

 

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Um final de semana mais próxima da cordilheira, uma lagoa ainda quase que selvagem, algumas carnes para o churrasco, havia vinho e também fizemos fogo! Um final de semana que era para ser de descanso, mas como último final de semana que poderíamos partir para algum lugar juntos e esquecer de que o fim está chegando, acabou se tornando um final de semana de risos, histórias, um final de semana de cumplicidade onde cada um deixou mais um pouco de si para quando partirmos, não irmos sozinhos. 

As águas transparentes de um certo lago armazenam agora em suas profundezas o reflexo das almas que em suas bordas se confessavam. Voltar? Ficar? Partir? O quê fazer? Não Sei quanto tempo ficamos nessas perguntas, mas mesmo na primavera do extremo sul onde o sol não quer se pôr, ele já ia se escondendo quando eu e minha conterrânea brasilis nos demos conta de que aquilo não passava de uma eterna busca por respostas que não existem. Existem situações, possibilidades, coisas boas e coisas ruins. Existem os problemas com os quais está disposto a lidar, existe aquilo que será capaz de suportar, existe o desejo, o comprometimento e o medo de fracassar. Existem oportunidades, existem a todos os momentos portas que se abrem… existem os sonhos dos atravessamentos de portas, janelas e muralhas.

Deixamos que as águas se afogarem em nossos devaneios. A noite encobria o céu com seus mistérios fazendo do vento algo tão frio que nem o mais caloroso dos corações poderia suportar. Não sei ao certo como foi que aquelas chamas apareceram, só me lembro do instante que as vi e não pude mais tirar os olhos daquele escarlate intenso que me hipnotizava. Quanto mais eu olhava aquela fogueira, mais imponente ela se fazia. Olhava a madeira queimar e se transformar cada pedaço do que um dia já foi uma vida virar cinzas, observava a seiva ferver dentro dos galhos mortos, e pensava nas dores necessárias para cada transformação.Sempre tive um fascínio pelo poder do fogo de fazer com que a vida se torna efêmera. E foi pensando na efemeridade de cada instante que me lembrei das palavras de um sábio chileno, mestre nas artes chinesas, e perguntava para mim mesma : qual o sentido de estar vivendo tudo isso? Segundo ele era de ouvir tudo o quê ele tinha a me dizer.

Nosso encontro se deu por motivos não tão poéticos, apesar de todos os versos duros que ouvi em todas as horas que compartilhamos. Há dois anos tive uma lesão na perna que acreditava estar completamente curada.Mas por motivos inexplicáveis uma dor ainda mais inexplicável resolveu se instalar. Nem quando me machuquei senti tanta dor. Tentava ignorá-la, mas ela se fez mais forte do que eu. Nunca tendo sido fã de médicos, muitos menos aqueles que sequer conhecia, fui procurar um acupunturista. Confio mai nas agulhas milenares do que nos receituários.

Mas como se não bastasse toda a dor física que estava sentindo, vinha esse senhor de sorriso tímido e olhos atentos me espetar também a consciência. Me perguntou inúmeras vezes porque nós bailarinos nos esgotamos tanto. Me perguntou porque não nos preparamos mais, porque não cuidamos de nós mesmos como deveríamos nos cuidar. Questionava meus fundamentos, perdi as contas de quantas vezes me perguntou quais eram as raízes da dança que queria dançar… E não parou por aí. Me questionou também sobre abandonar toda uma vida para passar três meses em um lugar de que nada sabia e nem ninguém conhecia. Quando pensava que alguns meses não eram nada comparado com toda uma vida ele me vinha que uma semente não para seu processo por alguns meses, ou ela cresce e se desenvolve e se transforma em uma árvore, ou ela perde todo seu potencial de um dia se tornar árvore morre. E com toda sua serenidade me intrigava se a minha escolha nutria a minha semente ou se a estava matando. O quê afinal está ficando de concreto depois desses mais de dois meses de muita dança, e tantas mudanças? O quê você está construindo com o quê está fazendo? Todas as ações deveriam ter um sentido – dizia ele. 

Um coreógrafo a cada duas semanas, uma proposta diferente a cada duas semanas, uma outra língua a cada duas semanas… tudo, ou quase tudo, muda a cada semana; as necessidades mudam, as energias se transformam, as identificações e repulsões também. Somos sempre os mesmos 12, as vezes 13, 14 ou até mesmo 15 artistas que nos transformávamos a cada dia. O quê nos uniu no início foi essa eterna busca por respostas que não existem, mas agora talvez o quê nos mantenha unidos é esse pedaço de história que escrevemos juntos e poder olhar um nos olhos do outro e nos reconhecer. Só que isso não basta, não mais.

Tive a certeza disso em uma pausa para o almoço dessa semana em que o coreógrafo da vez, francês simpático que é, nos perguntou o quê iríamos fazer depois de Revuelo. Resposta quase unânime foi a vontade de continuar dançando, de seguir viajando, mas de não ter idéia de conseguir que este sonho se materializasse. Olhava para aqueles olhares desejosos e perdidos por não saberem por onde começar para se saciar. Assistia aquela cena e uma parte de mim se reconheceu naquela cena quase que patética. Ahhhhhh como pode ser bom encontrar com pessoas que compartilham mais ou menos das mesmas frustrações. Olhar para um outro e se reconhecer nele de alguma forma nos ajuda a olharmos para nós mesmos. Sabemos que não estamos sozinhos. Mas as raízes estão muito mais além do chão que se pode ver.

O sábio chileno perguntou aonde estavam as minhas raízes, e eu passei a cultivá-las. Entendi que não existem respostas, existem escolhas, existem raízes a serem cultivadas e existe o jardim no qua se quer viver. Escolher, procurar , encontrar, realizar e por fim aceitar!

Eu quero estar pelo mundo levando comigo as minhas raízes para aonde for. Assim como as orquídeas não precisam de terra para florescerem eu tampouco me contento com o quê poderia ser o óbvio. Me enraízo em tudo o quê crio, sem me preocupar com o tempo que passa ou com o tempo que me resta. Enquanto eu puder dançar, enquanto houver quem dance comigo, a vida ainda terá sentido!

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