Para que a força e a velocidade não abram portas para o perigo

IMG_1200Já se passou mais de um mês e meio de vida do outro lado da cordilheira, ao mesmo tempo que me sinto como se estivesse aqui já há muito tempo de tão adaptada que estou com a cidade, com o ritmo de trabalho e com as pessoas, não consigo acreditar que já se passou tanto tempo. Isso significa que está cada vez mais perto do fim e o conflito começa a aparecer: ao mesmo tempo que existe a saudade do que ficou, existe a vontade de não querer terminar por sentir que ainda há muito a viver.

Muitas escolhas me trouxeram até aqui. E aqui continuo a fazer muitas outras as quais não tenho idéia de onde vão me levar. Algumas eu sabia porque as estava fazendo, foram pensadas em todos  – ou quase todos  – os detalhes. Mas ainda acredito que as mais significativas, as escolhas que fizeram mesmo diferença na vida até então foram aquelas que eu não tinha idéia do porque estava fazendo. Apenas sabia que precisava fazer e a minha intuição me bastava para seguir em frente.

Algumas pessoas vão dizer que cada escolha têm que ter um fundamento, e em parte isso é verdade. mas o quê a grande maioria delas não diz é que nem sempre esse fundamento está pautado em algo racional, conceitual ou explicativo. Feeling, intuição… algo para o quê não existem palavras mas que pode fazer toda a diferença na hora de decidir por este ou aquele caminho.

Penso em tudo o quê quero fazer, penso em tudo o quê preciso fazer. Penso em todas as minhas escolhas, em como me organizo e nas consequências de tudo o quê faço. Penso nos sentidos das situações e nos significados dos encontros. Penso em responsabilidades, penso na minha liberdade. Penso em tudo, e sinto o quanto pensar tanto pode ser perturbador.

Serão três meses ao todo no Chile, já se foi a metade. Tempos de muitos aprendizados mas com duas semanas que foram mais do que especiais por vários motivos. Não só pela riqueza do trabalho em si, pelo desenvolvimento técnico, como pelas reflexões profundas sobre o meu próprio trabalho, mas com um destaque para a finesse dos encontros. Bastaram duas semanas de trabalho com Máte Mészáros para que nos dias seguintes algumas chaves começassem a abrir portas. A primeira semana de trabalho foi extremamente produtiva com muitos movimentos que já os conhecia da capoeira, mas passei a vê-los como algo além. Uma semana de organizaçào do corpo, de fortes dores musculares e um prazer intenso de ver dificuldades sendo vencidas dia após dia. Um final de semana em Santiago do Chile, com mais encontros, com mais movimento, com mais capoeira e com um poeta.

Nunca vou me esquecer daquela casa de arquitetura rara (em todos os sentidos que o português e espanhol podem abarcar). Nunca vou me esquecer da sensação de estar no lugar onde uma das pessoa de alma mais encantadora que já pisou nessa terra foi velado. Guardarei comigo a sua poesia Pablo Neruda… Só a poesia é capaz de salvar as almas que se afogam na realidade. Só ela traz de volta a subtilidade do que deveria ser viver. E foram com versos e palavras as vezes doces, as vezes doloridas, que voltei ao el sur escoltada pela cordilheira e por toda memória que aquelas rochas protegem.

Uma nova semana começa, e tudo que começa guarda em si o potencial de agregar algo a mais… ou a menos. Algumas cervejas a mais, algumas doses a mais, algumas horas de sono a menos, momentos memoráveis a mais, e memória a menos. Um corpo alguns dias menos disposto, outros dias muito mais. Um alma sem dúvida mais disponível, mais leve. Muitos, muitos mais risos.

Vi meu corpo se transformar, se tornar mais forte enquanto não via o tempo passar. Todos os dias fazíamos basicamente as mesmas coisas: aquecimento, roladas, acrobacias, trabalhos em duplas, improvisação. Sentidos são produzidos na repetição dos dias. Mas cada dia se tornou único, porque cada dia um passo em direção a algum lugar era dado.

Para aonde? Essa foi a pergunta que ficou no ar.

Instantes antes de apresentarmos conversava com Máte e lhe perguntava quais eram os seus fundamentos, as bases em que ele constrói seu trabalho. A resposta foi simples, direta e objetiva: “busco por movimentos e como organizar meu corpo da forma mais orgânica possível para executá-los.” E em suas criações me dizia que não busca contar uma história, não intenta nenhuma dramaticidade. “O pública cria suas próprias histórias”. O quê busca é ainda mais simples, e mais difícil: emocionar. Ele quer evocar emoções em quem assiste seu trabalho, não importando qual emoção seja evocada e tão pouco importa se quem assiste consegue explicar o quê sentiu ou não.

O sentir basta!

Como no final de cada módulo do programa, fizemos uma mostra do trabalho. Só que dessa vez depois do palco ninguém queria pizza, cerveja ou jagermaster. Havia um certo silêncio que pesava pois chegava a hora de dizer tchau. Não queríamos, mas não tinhamos escolha. Ninguém falava muito simplesmente porque não havia nada a dizer. Em uma esquina qualquer cada um deu o seu abraço. Olhava para uma e via lágrimas que enchiam os olhos, se controlando para não transformar um belo rosto em uma cascata. Olhava para outras e via a tristeza encarnada. Olhava para mim e perguntava como fazer com que o tchau se transformasse em um até logo.

Fui embora pensando, o quê faríamos nós, Pasajeros en tránsito, no Chile senão buscar por algumas respostas para tantas perguntas. Pessoas que deixaram seus países, suas vidas, seus trabalhos, família, amigos, tudo… para viver três meses em um lugar de onde não sabíamos muita coisa. A experiência é linda, mas para ter essa força e essa coragem têm que estar em um estado de espírito muito particular, para não dizer outra coisa.

Naquela noite, enquanto íamos nos distanciando olhava para cada um seguindo o seu caminho e me perguntava quais foram as angústias que fizeram com que nos encontrássemos. Todas as escolhas que fiz em minha vida de certa forma me trouxeram até aqui. O quê me faz lembrar de Nietzsche  e algo de seus ensinamentos como: leve o tempo que precisar para descobrir o quê quer da vida, mas depois que descobrir não deixe nada te parar.

Eu quero dançar, cantar, escrever. Quero desafios, quero emocionar. Não sabia como fazer isso até entender que o mais simples é o mais desafiador. Caminhos alternativos nos distanciam do quê realmente estamos tentando atingir. Algo que nos incomoda o faz por algum motivo. Como todo esquecimento é sintoma de alguma coisa, todo incômodo também o será. Escolhas têm fundamentos simples: você se sente bem com o quê escolheu e sabe que aquilo foi o melhor a fazer ou não!

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