ANNE FRANK HOUSE


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Janeiro começa como que um passe de mágica atravessando mais uma vez o oceano, mas dessa vez não foi para ir em busca de sonhos, e sim da realizá-los . O destino? Amsterdã, cidade tão charmosa quanto polêmica em sua liberdade de existir. O motivo? Reencontros! Reencontrar espaços, pessoas, danças… reencontro com o desconhecido, com o misterioso e com o enigmático. Reencontro de olhares sobre o mundo, de saberes e de escolhas… reencontro de vidas, passadas e futuras!

Como que tão poucos dias podem ser tão decisivo para todo o resto? Simplesmente porque o instante é único. E cada instante é uma oportunidade, também única. Instante perdido, oportunidade perdida. Foi assim que meus quinze dias nas terras baixas se sucederam: em busca de viver quantas oportunidades me fossem possíveis. Dentre todas as que poderia falar, uma que me marcou da primeira vez, da segunda, e creio eu que vai continuar marcando para sempre, é poder visitar a casa da Anne Frank. Ou melhor, seu esconderijo.

Dessa vez a visita teve um motivo especial. Já conhecia a história, já conhecia a casa… Mas agora queria ir mais fundo na essência de tudo o quê ainda se faz presente ali, absorver o máximo possível todas as sensações e memórias escondidas naquelas paredes. Busquei nessa visita mais referências para a criação do espetáculo “Perfume de Rosas”. Quanto mais eu aprendo sobre a Segunda Guerra Mundial, mais eu fico impressionada, chocada, mais minhas emoções se reviram dentro de mim. Afinal de contas, a responsabilidade dos artistas é estar disposto à ler os contextos, ler o quê é possível criar nesses contextos. É se auto-fascinar com as possibilidades e fazer o quê deve ser feito para dar a chance à outros de também se transformarem.

Depois de tudo andar, de tudo ler, e de muitos postais comprar, me sentei no café do museu para beber um bem quente – e sem açúcar – enquanto digeria tudo o quê me foi impregnado.

Se pensarmos objetivamente a casa é uma casa pequena. Parece impossível que ela conseguisse não só esconder, mas acolher, oito pessoas em todos os seus medos, sonhos e frustrações. Dois anos em um anexo sem sequer poder contemplar a neve que obrigava o fogo se manter aceso. Dois anos sem os primeiros raios de primavera colorindo os dias cinzas. Dois anos convivendo vinte e quatro horas com as mesmas pessoas, que também não admiravam a neve e não via os raios da primavera. Dois anos de profunda contemplação interior.

O quê me emociona não é só a força dessas pessoas – com a sabedoria que lhes era possível – em como conseguiram se manter resilientes por todo esse tempo. O quê mais me emocionou mesmo é poder ver de fato o poder dos sonhos. O poder do futuro. A importância de manter o olhar sempre seguindo em frente sem nunca esquecer o quê ficou para trás.

Digo isso porque me dói de forma física saber que Anne Frank veio a falecer apenas um mês antes da liberação do campo de concentração em que foi feita prisioneira. Um mês… O quê é isso para quem já viveu tanto tempo agradecendo cada dia que ainda estava viva?

A diferença estava no quê ela tinha ao seu lado nos tempos de clandestina: sua família, e seu diário.

Não sei o quê aconteceu enquanto fato concreto, mas imagino que ver sua irmã morrer de tifo exantemático, não saber se seus pais estavam vivos ou mortos e ainda por cima não ter mais as folhas em branco que lhe permitiam desafogar para que um pouco de ar entrasse como um sopro de vida de um recém-nascido, isso era demais para uma menina.

Podia sim seu corpo estar muito fraco e doente, mas como Nietzsche dissera, Quando se tem um porque, aguenta-se quase qualquer como. Talvez não tenha sido o tifo que a matou. Talvez ela não tinha mais um porque viver. Talvez – e cuidadosamente eu digo talvez – não precisasse de um porque específico. Talvez qualquer um fosse o suficiente para mais um mês.

Ela queria ser uma escritora famosa. Fez da sua realidade o principal suporte para que isso acontecesse. Ela domesticou seus monstros escrevendo sobre eles. Todos temos exatamente a oportunidade de que precisamos. Talvez realizar os sonhos possa ser algo assustador. Sonhos podem se tornar monstros se não forem domesticados.

Por que não optar pelo suicídio? Como questionaria Viktor Frankl, um psicólogo que sobreviveu ao campo de concentração nazista. Porque só por hoje ainda têm ao menos um motivo para continuar vivendo.

Algumas pessoas não entendam que elas são o motivos de outras. Se elas não o são, elas os dão. Comigo têm acontecido. Acho que algumas pessoas ainda não entenderam que a vontade delas em seguir certos caminhos alimentam a minha própria vontade. A disponibilidade delas em estar ali para vivenciar minhas idéias alimentam o meu desejo em continuar criando. Suas inseguranças ressoam diretamente em mim. Também tenho medo de quê não dê certo. Mas tenho ainda mais medo de viver uma vida frustrada. Insistir com elas para seguirem seus anseios à insistir comigo mesma para satisfazer os meus. Convencê-las de realizar seus sonhos é dizer à mim mesma que também posso realizar os meus. Pessoas têm esse poder de abrir portas e construir estradas.

Construir estradas é bem diferente de somente percorrê-las…

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