Um percurso… várias possibilidades

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A cada dia nós devemos fazer várias escolhas,s escolher também é renunciar. Então como saber se o que se esta escolhendo é a melhor escolha? Não, não é possível saber à priori. E é justamente esse não saber o que acontecerá depois  a maior fonte de angustia.

Eu tinha medo de mim. Como alguém pode ter medo de si mesmo? Não sei; mas tinha medo de mim. Talvez simplesmente porque não tinha consciência suficiente sobre minha essência, o quê me colocava numa posição de alienação. Tentava buscar respostas em teorias, experiências alheias, completamente em vão. Era preciso pesquisar minha própria experiência em dança. Mas como fazer isso? É o quê tenho me perguntado todos os dias. Não existem cursos para ensinar essas coisas? Ainda bem que não! Senão minha angústia ainda permaneceria encravada no meu corpo, estaria ainda mais distante da resposta.

Quero trabalhar ainda mais com improvisação, é isso o mais importante para mim. Mas, o quê representa a improvisação na minha vida? Tudo, simplesmente tudo. Por quê? Como disse, eu tinha medo de mim. Até que depois de 12 anos de aulas de dança variando entre balé clássico, jazz chegando ao contemporâneo, finalmente eu descobri a improvisação.

Minha primeira experiência com improvisação não foi muito estimulante. O olhar do outro era uma barreira, alguma coisa extremamente intimidante. Pensava que era preciso fazer algo bonito, que agradece aos olhos desejos de ver coisas bonitas e agradáveis. Assim, prendia-me demais à forma para me permitir simplesmente ser eu. E isso doía.

Nessa época eu era estudante de Psicologia em belo Horizonte. Buscava na Psicologia o quê estava sempre dentro de mim, e eu sabia. Mas tinha medo de saber.

Até que no último ano de curso escrevi minha monografia (também conhecida como trabalho de conclusão de curso). A escolha sobre o quê escrever foi uma escolha de fundamental importância para todo o resto da minha vida. Escolhi escrever sobre a relação da improvisação e a Fenomenologia segundo Merleau-Ponty. Ali decidi que tinha que dançar mais, que em algum momento da minha vida eu tinha que me dedicar prioritariamente a dança. Então decidi fazer mestrado, em dança, na França. Por quê fazer um mestrado? Mais teorias? Sim, achava que tinha que estudar mais para aprender, para conseguir dar aulas, dançar. Achava que era com mais teorias que encontraria a resposta para o quê tanto precisava. A academia por algum motivo desconhecido ainda me é de alguma forma um “porto seguro”.

Mas, e por quê a França? Porque precisava de distancia da minha história, de todos os meus automatismos, medos, anseios, desejos e frustrações. Estava sufocada, e sufocava aos que estavam à minha volta na mesma medida que me sufocavam.

Vim para a França, e encontrei um espaço para ser eu. Sem medo de julgamentos, sem repressões do olhar alheio. Quanto mais expansiva me permitia ser, mais aceita por mim mesma eu era. Me libertei; mas não havia me encontrado, não assim de repente. Precisei de mais tempo. Até que conheci alguém de nome tão doce quanto é a sua alma: Claire Filmon.

Conheci-a completamente ao acaso, graças ao anuncio de uma tarde de contato-improvisação. Era domingo, e não haviam planos. Então, por quê não? Assim fui, sem conhecer ninguém; sem ter a mínima idéia do que lá se passaria. Me surpreendi… foi uma experiência mágica. Deixei meu email, e tempos depois recebi um convite para participar de um projeto para composição de solos. Não sabia do que se tratava, mas, como nunca tinha criado um solo para mim, me pareceu suficientemente interessante para descobrir. Fui ao encontro, e me apaixonei pela proposta. Aquele primeiro encontro me trouxe uma intuição muito forte de como isso seria importante para mim.

Começaram-se os encontros; éramos seis bailarinas, e Claire como coreógrafa. Cada uma chegou com sua história, expectativas, vontades, limites. Cada uma com sua cultura, sua língua: o grupo era formado por quatro francesas, uma brasileira, uma austríaca e uma taiwanesa. Encontros riquíssimos nos quais Claire fazia emergir tudo o quê havia de mais profundo em nossas almas.

Dentro de alguns meses cada uma conseguiu narrar um pedacinho da sua história através de movimentos. Cada uma conseguiu criar finalmente seu solo.

Hoje, por questões aleatórias, nosso grupo foi reduzido à três bailarinas: eu mais duas francesas, e Claire.

O projeto está na sua fase final, temos duas apresentações marcadas. E apesar da última apresentação ser o encerramento do “Solli-tutti”, esses solos não serão esquecidos. Estarão aí, para serem apresentados para todos aqueles que desejarem ver.

Mas por quê contar toda essa história?

Precisei contá-la, mesmo que muito resumidamente, para que minha conclusão faça um mínimo de sentido: Toda composição coreográfica é uma oportunidade única de profunda transformação. É mais do que um espetáculo a ser apresentado. O processo de criação é um processo de transformação de si mesmo. Criação não é terapia, mas tem sua dimensão terapêutica. Parte-se de onde está para chegar onde se deseja estar. Cada coreografia é um pedaço de história a ser trabalhada à medida em que é criada.

E dentro desse processo criativo, do meu ponto de vista, a improvisação é o caminho que permite o mergulho mais profundo. Dançar a coreografia de um outro não é menos bonito, nem menos importante do que dançar sua própria história. Mas é encontrar a si mesmo nesse outro, é tentar identificar-se com uma história que não é a sua. Limitar-se à essa estrutura, é limitar o próprio processo de desenvolvimento.

Improvisar é permitir-se seu eu se manifestar. É se permitir contar sua própria história da maneira como achar melhor!

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